O Programa Boralê surgiu da tradição de
Passo Fundo na formação de leitores e no desenvolvimento cultural, desde 2005,
quando foi declarada Capital Nacional da Literatura (PLC 98/2005). Contudo,
diante das mudanças sociais e tecnológicas, foi necessário encontrar novas estratégias
para atrair crianças e jovens e criar vínculos duradouros com a leitura.
Instituído pela Lei nº 5.675/2023, o projeto visa incentivar o hábito da leitura entre os alunos da rede municipal, a partir de ações que incluem não só a oferta de livros, mas também vivências literárias em espaços culturais da cidade – Feira do Livro, Academia de Letras, Prisma Espaço Geek e Biblioteca Municipal. Essas ações ampliam o repertório cultural dos estudantes e criam laços com a literatura e a cultura local.
O programa é estruturado em torno do Passaporte da Leitura, recurso lúdico e educativo, onde se pode registrar as “viagens leitoras”, marcar os livros lidos e anotar impressões. A ação contribui para o desenvolvimento da linguagem, do pensamento crítico, da sensibilidade e criatividade dos alunos, favorecendo a formação cidadã ativa.
O Boralê é desenvolvido ao longo do ano
letivo por meio de ações integradas entre escolas, espaços culturais e
comunidade. Sua principal ferramenta é o Passaporte da Leitura, material
lúdico e interativo, onde os estudantes registram suas “viagens leitoras” -
livros lidos, opiniões e atividades relacionadas. Anualmente, os
passaportes são distribuídos aos alunos da Educação Infantil e Ensino
Fundamental, viabilizando o acesso ao vale-livro – um voucher de R$ 40,00 para compra das obras nas livrarias
parceiras cadastradas. Essa ação não só democratiza o acesso aos livros, como
também movimenta o comércio local, fomentando o mercado editorial e a cultura
literária.
Sua metodologia contempla diversas fases e ações específicas: os alunos participam da Feira do Livro anual, evento que reúne autores, livreiros, contadores de histórias e agentes culturais da cidade. Além disso, as escolas organizam “minifeiras do livro”, proporcionando um ambiente mais próximo e acessível para que os educandos escolham suas leituras. Esses eventos são acompanhados de contação de histórias, bate-papo com escritores e oficinas literárias, que ampliam o engajamento.
Outra dimensão importante é a articulação com a Biblioteca Municipal Arno Viuniski, referência na promoção da literatura em Passo Fundo. A instituição atua como ponto central de fomento à leitura, oferecendo suporte para as escolas, além de organizar visitas e atividades aos alunos. Complementarmente, a ação apoia a implementação de cantinhos de leitura nas escolas municipais, espaços acolhedores dedicados a estimular a prática no ambiente escolar.
O projeto também conta com a colaboração da Academia Passo-fundense de Letras, com ações educativas e culturais voltadas à valorização da literatura local e regional. O programa RECREativo, vinculado à Secretaria Municipal de Educação, apoia a execução das atividades lúdicas que acompanham o Passaporte da Leitura.
Assim, o Boralê se desenvolve graças à colaboração entre as Secretarias Municipais de Educação e Cultura e diversos agentes culturais, o que reforça a intersetorialidade do programa, garantindo sua sustentabilidade e alcance.
Passo Fundo é uma cidade gaúcha com cerca de
214.564 habitantes e um importante polo regional de saúde, educação e cultura.
Sua população apresenta perfil variado, sendo 17,4% entre crianças e
adolescentes de 0 a 14 anos, público do Programa Boralê. Sua
economia inclui principalmente os setores de agroindústria, comércio, serviços
e educação.
O projeto é desenvolvido na rede municipal de ensino, que atende mais de 18 mil alunos divididos entre Educação Infantil e Ensino Fundamental, distribuídos em 75 escolas de diferentes bairros da cidade.
Desde sua implementação, observou-se mudanças significativas no engajamento dos alunos na cultura literária. Inicialmente, o desafio foi ampliar o acesso aos livros e fomentar o hábito de leitura em um cenário de domínio digital e desinteresse desse público pela mesma. O Boralê conseguiu reverter essa tendência ao proporcionar obras literárias escolhidas pelos próprios alunos, por meio do vale-livro, e ao integrar ações recreativas que incentivam o contato com a leitura de forma prazerosa. A avaliação diagnóstica da rede municipal indicou uma melhora de 16,53% no desempenho dos alunos, refletindo o avanço na alfabetização.
Entre seus pontos fortes, destaca-se a articulação intersetorial, com as Secretarias Municipais de Educação e de Cultura, a Biblioteca Municipal Arno Viuniski, a Academia Passo-fundense de Letras e o programa RECREativo, além da parceria com livrarias locais. Essa rede colaborativa fortalece o impacto cultural do programa e amplia o alcance das ações, refletindo o compromisso da cidade com a participação social e a construção coletiva do conhecimento.
O Passaporte da Leitura, com seu formato
interativo e espaço para registro de experiências leitoras, se mostrou uma
ferramenta eficaz para estimular o interesse e registrar os avanços dos alunos.
Desde 2023, foram distribuídos mais de 35.000 passaportes, incluindo os vales-livro
e o município investiu cerca de R$ 1.440.000,00 em vales-livro e iniciativas
relacionadas.
Outro aspecto relevante é a mobilização da comunidade escolar e das famílias, que se envolvem mais nas práticas leitoras, ampliando o efeito transformador para além da escola. O impacto no comércio local, a partir da troca dos vales-livro, também evidencia um resultado econômico e social positivo.
No entanto, o programa enfrenta desafios, como, por exemplo, o ajuste contínuo das atividades para manter o interesse dos alunos frente às novas tecnologias e formas de consumo de informação. O sistema de distribuição dos passaportes e vales, bem como o acompanhamento sistemático nas escolas, também demandam aprimoramento a fim de garantir maior eficiência.
Para o futuro, planeja-se a expansão dos passaportes, incorporando elementos de gamificação que tornem a experiência de leitura ainda mais envolvente e atrativa. Pretende-se também ampliar as ações culturais complementares, como “minifeiras do livro”, encontros com escritores e contação de histórias, além da presença do programa em espaços comunitários. O reforço na formação continuada docente para utilização das ferramentas do Boralê em suas práticas pedagógicas também é prioridade.