No marco do programa estratégico Rosario
Empreende da Prefeitura de Rosario, identificamos desde seus inicios (ano 2016)
um protagonismo crescente das mulheres nos itinerários formativos impulsados
pela Escola de Empreendimentos Sociais. Com diferentes perfis socioeconômicos e
faixa etárias, as mulheres lideravam seus empreendimentos autogeridos, gerindo
de forma simultânea suas multiplex tarefas de cuidado em seus lares (espaços
que coincidiam com suas unidades produtivas). A constatação de esta feminização
dos cuidados, somado as inquietudes expressadas pelas participantes, nos levou
a pensar um ciclo educativo especifico para elas, incorporando conteúdos e
debates vinculados com o trabalho e os cuidados desde uma perspectiva
feminista, problematizando temas chave da economia de cuidados e da economia
social e solidaria. Assim surge, em 2019, “Juntas Fazemos Economia”, um
programa que está integrado no Plano Integral de Inclusão e Cuidados da
Prefeitura (Plano CUIDAR)
Se trata de um programa pedagógico dirigido a mulheres empreendedoras da economia social, solidaria e popular, as quais a Prefeitura de Rosario vem acompanhando nos últimos anos no fortalecimento de seus projetos, dando ferramentas educativas, de assistência técnica e/ou comercialização.
Em suas convocatórias já somou 700 mulheres para debater e problematizar temas vinculados com a economia feminista, com o eixo nos cuidados, e seu vínculo com os empreendimentos familiares. A longo de suas 4 edições se há trabalhado temas como “mulheres, trabalho e autogestão”, “estratégias coletivas de comercialização”, “vínculos, redes e organização comunitária entre pares”, “educação financeira e economia familiar”, “finanças solidarias e cooperativas”, “os cuidados, trabalho profissionalizado e cooperativo”, ou “redes para potenciar nosso trabalho em comunidade”.

O projeto tem os seguintes objetivos:
1. Gerar transformação subjetiva e aprendizagem cooperativa nas participantes, entorno a problemáticas transversais as mulheres trabalhadoras desde uma perspectiva feminista.
2. Fortalecer vínculos comunitários entre pares, no marco de processos de construção coletiva a autonomia econômica das mulheres e o exercício de seus direitos.
3. Revalorizar o papel das mulheres na economia e sociedade, identificando os estereótipos de gênero que condicionam seu desenvolvimento.
A metodologia do projeto se baseia na pedagogia com base na educação popular transformadora, foco que atravessa todos os programas educativos da Escola de Empreendimentos Sociais da Prefeitura de Rosario. A partir dos saberes, experiências e aptidões das participantes, a intencionalidade educadora aponta a dinamização do encontro, o intercâmbio, a participação e o debate entre elas. Com um tema-chave levantado por encontro, e a presença de panelistas convidadas a modo de testemunhas disparadores, a aprendizagem cooperativa aponta a refletir e aprofundar sobre alguns temas naturalizados em nossa sociedade, como são a divisão sexual do trabalho, ou a feminização das tarefas de cuidado.
“Juntas Fazemos Economia” é realizado em base a uma planificação anual, com uma jornada-workshop por mês. Como ciclo educativo, se iniciou em 2019, convocando a 100 mulheres selecionadas em base a seu perfil, gestoras de empreendimentos de alimentos, artesanatos ou ofícios e serviços, vinculadas a organizações sociais, e com ênfase na equidade territorial (considerando os 6 distritos da cidade).
Na edição de 2021, ainda no contexto de isolamento por conta da pandemia, foi necessário introduzir ao projeto espaços virtuais de aprendizagem. Em 2022, foi realizado um ciclo de jornadas, de março a novembro, com um itinerário duplo educativo: 1) “mulheres, trabalho e cuidados”; 2) “Educação financeira, economia familiar e finanças solidárias”. O programa se implementou em articulação institucional com o Centro Cultural Parque Espanha (CCPE), centro da Cooperação Cultural Espanhola na Argentina.

A estratégia pedagógica é implementada pela Direção da Escola de Empreendimentos Sociais, área da Subsecretaria de Economia Social da Prefeitura de Rosario, dependente da Secretaria de Desenvolvimento Humano e Moradia. Esta área também se articula com outras áreas da Subsecretária e também com outros atores públicos:
- Subsecretaria de Gênero da província de Santa Fe
- Centro Cultural Parque Espanha
- Direção Nacional de Políticas para Adultos Maiores (Secretaria Nacional da Infância, Adolescência e Familia)
- Incubadora de Cooperativas de Cuidados
- Universidade Nacional Três de Febrero (UNTREF)
- Centro de Investigações sobre Estudos do Trabalho (CIET) da Universidade Nacional de Rosario (UNR)
- Fundo de Capital Social (FONCAP)
- Comissão de Feminismos e Dissidências do Conselho Municipal da Cidade
- Banco Municipal de Rosario
Também participaram no projeto, atores da sociedade civil como a ONG Nuestras Huellas, o Banquito Solidario Cabin 9, as cooperativas de cuidadoras domiciliarias Soltrecha, Nuovo Orizzonte e a Fuerza del Oeste, as cooperativas de trabalho TExtiles Pigue, SOUNO e in lak ech, a rede de mulheres do sudoeste, a Fundação de mesofinanças LaBase, ou as feiras cooperativas autogeridas rosarinas, a Colmena, o Hormiguero ou a Feira de Desenho de Fisherton.
Segundo o último censo disponível (2010), a
cidade de Rosario conta com 948.312 habitantes (se estima que a população atualmente
supera um milhão de habitantes). A cidade está situada em uma área urbaniza de
107,98 km2 dentro de uma superfície municipal de 178,69 km2, com uma densidade
de 5.089 hab./km2. A estrutura produtiva de Rosario e sua área metropolitana está
conformada por uma série de atividades que integram ramas agroindustriais
tradicionais com tecnologias de informação e comunicação, um setor de serviços
e uma indústria alimentaria.
A raiz da crise socioeconômica global, aprofundada pela pandemia do COVID-19, na cidade de Rosario se identificam u número crescente de pessoas, em sua maioria mulheres, que são excluídas do mercado de trabalho formal, e que tratam com dificuldade gerar renda por sua conta própria por meio de trabalho independente. A causa dessa situação, e com antecedentes desde 2003, a economia social foi hierarquizada com política pública estratégica no município a partir de 2015.
Com uma estrutura municipal intencionalmente descentralizada em 6 distritos de atenção, a Subsecretaria da Economia Social desenha e implementa estratégias e ferramentas a fim de acompanhar e fortalecer os crescentes empreendimentos familiares autogeridos. Estes projetos são gerenciados majoritariamente por mulheres (atualmente um 90% do total), de diferentes perfis socioeconômicos e faixas etárias (principalmente, entre os 35 e 65 anos).
O projeto aponta a um perfil de mulheres em risco de exclusão socioeconômica, com descendentes a cargo e principais provedoras do lar, que tratam de gerar renda através de empreendimentos produtivos para sustentar suas economias familiares. O ciclo, com equidade territorial, aspira a fortalecer em elas processos de autonomia econômica desde uma perspectiva de economia feminista, reconhecendo os princípios e práticas de economia social, solidaria e popular que são próprios.
As mudanças identificadas a raiz da implementação do projeto obedecem a impactos positivos no plano de subjetividade das mulheres. Elas valorizam a importância e pertinência dos temas e debates apresentados em relação com suas situações pessoais, familiares e econômicas. A maioria resgata a importância de valorizar seu trabalho em sentido amplo (produtivo e reprodutivo); outras reconhecem que o programa lhes ajudou a repensar-se como empreendedoras e dinamizadoras fundamentais da economia de bairro e local.
Também destacam a progressiva confiança em si mesmas e a autonomia que vão ganhando em seus empreendimentos. Por último, se valorizar a possibilidade que oferece o ciclo de gerar redes, sinergias e alianças entre pares. Em esse sentido, identificamos algumas estratégias comunitárias geradas a raiz do trânsito de algumas participantes pelo ciclo educativo, tais como estratégias associativas vinculadas a compra de matérias primas, ou a comercialização associada de produtos.
Pontos fortes:
Cabe destacar os impactos positivos já mencionados. Por outro lado, também destacam as réplicas e a capilaridade de estas mudanças, dado que as mulheres são a sua vez multiplicadoras em suas organizações sociais, em suas feiras autogeridas e nos espaços que dinamizam em seus próprios bairros.
Desafios:
Por outro lado, os processos educativos incidem sobre a matriz subjetiva e cultural das pessoas, a qual habitualmente é fundante de muitos padrões e princípios de conduta que não são simples de transformar. Por tanto, para superar a “debilidade” associada a complexidade de sustentar e aprofundar as mudanças educativas geradas pelo ciclo, nosso desafio e proposta para 2022 é desenhar e implementar, de forma participativa e articulada entre áreas, estratégias de seguimento que nos permitam sustentar e potenciar dispositivos concretos e ações práticas no território que empoderem as mulheres em suas condições socioeconômicas, em aliança com outras pares.
Desafios para o Futuro:
O projeto aposta pela geração de instâncias coletiva de reflexão entorno ao papel das finanças para economia e para a vida (em um contexto de crescente feminização da dívida, nos lares e nos bairros populares), junto com a abordagem simultânea de experiência de concessão de microcrédito e educação financeira no marco da execução de um fundo rotatório solidário de microcrédito por parte da Subsecretaria de Economia Social.
Por outra parte, no marco do crescente reconhecimento das cooperativas sociais como entidades de interesse público, e de revalorização social das tarefas de cuidados (com futura aprovação de uma inovadora lei nacional), se aponta ao fortalecimento das cooperativas de cuidado existentes em Rosario, junto a ações articuladas tendentes ao fomento da profissionalização remunerada do cuidado em formato cooperativo, desde o Estado municipal, provincial e nacional.